quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Terapia cognitiva




Terapia cognitiva - (resumo)



Fundamentos teóricos


Paulo Knapp

O modelo cognitivo foi originalmente construído de acordo com pesquisas conduzidas por Aaron Beck para explicar os processos psicológicos na depressão, em uma tentativa de provar a teoria freudiana de depressão como hostilidade retrofletida reprimida. A pesquisa sobre os sonhos dos pacientes deprimidos mostrou um “senso de derrota, fracasso e perda”.

 Estabelecendo as bases para a teoria e terapia cognitivas, Beck passou a diferenciar a abordagem cognitiva da psicanalítica, focando o tratamento em problemas presentes, em oposição a desvelar traumas escondidos do passado, e na análise de experiências psicológicas acessíveis, ao invés de inconscientes. Entretanto, a experiência com a psicanálise foi importante no desenvolvimento inicial das estratégias e conceitos terapêuticos da TC. Uma contribuição importante para os fundamentos da TC foi dada pela formulação freudiana de estruturação hierárquica da cognição em processo primário (isto é, fora da consciência e baseada em fantasias e desejos) e processo secundário (isto é, acessível à consciência e baseado nos princípios de realidade objetiva), bem como o conceito de que os sintomas são baseados em idéias patogênicas. Desde seu treinamento em psicanálise e ao longo de sua carreira profissional, Beck identificou-se com neo-analistas, como Alfred Adler, Karen Horney, Otto Rank e Harry Sullivan, que enfatizaram a importância de entender e lidar com as experiências conscientes dos pacientes, bem como a necessidade de tratar os significados que os pacientes atribuem a eventos que acontecem em suas vidas. A teoria cognitiva, com seu foco nos processos intrapsíquicos, e não no comportamento observável, é mais um legado da teoria psicanalítica, embora os procedimentos terapêuticos sejam mais semelhantes à terapia comportamental.

A TC recebeu contribuições de outras escolas também, como a abordagem fenomenológica humanista de Kant, Heidegger e Husserl, com ênfase na experiência subjetiva consciente. Derivado dos filósofos estóicos gregos surgiu o conceito de que os seres humanos são perturbados pelos significados que atribuem aos fatos, e não pelos fatos per se. Carl Rogers, com sua terapia centrada no cliente, inspirou o estilo terapêutico de questionamento gentil e aceitação incondicional do paciente. A teoria do apego de John Bowlby foi uma fonte altamente valiosa para o desenvolvimento da conceitualização cognitiva.
As influências das ciências cognitivas e da psicologia cognitiva também foram responsáveis pelas bases da TC. Os trabalhos de George Kelly, um psicólogo cognitivo, tiveram importante impacto, principalmente sua teoria do constructo pessoal que, junto com a idéia de esquemas de Piaget, evoluiu para a definição semelhante de Beck de esquemas. A teoria cognitiva de emoções de Richard Lazarus, a abordagem de solução de problemas de Goldfried & D’Zurilla, os modelos de auto-regulação de Albert Bandura e Donald Meichenbaum, além de escritores com foco na cognição, como Arnold Lazarus, também influenciaram a teoria  e prática cognitiva.

A ênfase da TC em uma abordagem de solução de problemas conscientes também foi adotada pela terapia racional emotiva comportamental.

De um  ponto de vista filosófico, a TC pode ser considerada muito mais humanista, exploratória, uma vez que trabalha com construtos como a mente, e lida com sentimentos e pensamentos, ao passo que muitos considerariam a terapia comportamental mecanicista demais.



Princípios da TC


Princípio fundamental →  maneira como os indivíduos percebem e processam a realidade influenciará a maneira como eles se sentem e se comportam.
Objetivo terapêutico da TC →  reestruturar e corrigir esses pensamentos distorcidos e colaborativamente desenvolver soluções pragmáticas para produzir mudança e melhorar transtornos emocionais.
Pensamentos automáticos → pensamentos nas fronteiras da consciência, ocorrem espontaneamente e são de interpretação imediata.

Nas raízes dessas interpretações automáticas distorcidas estão pensamentos disfuncionais mais profundos, chamados de esquemas (também denominados crenças nucleares, usados com o mesmo significado por muitos autores).

Conforme definido por Clark, Beck & Alford, esquemas são “estruturas cognitivas internas relativamente duradouras de armazenamento,  de características genéricas, prototípicas de estímulos, idéias ou experiências que são utilizadas para organizar novas informações de maneira significativa, determinando como os fenômenos são percebidos e conceitualizados”. Uma vez que uma determinada crença básica se forma, ela pode influenciar a formação subseqüente de novas crenças relacionadas e, se persistirem, são incorporadas na estrutura cognitiva duradoura ou esquema. Crenças nucleares embutidas nessas estruturas cognitivas modelam o estilo de pensamento de um indivíduo e promovem erros cognitivos encontrados na psicopatologia.
A ativação desses esquemas interfere na capacidade da avaliação objetiva de eventos,  e o raciocínio torna-se prejudicado. Distorções cognitivas sistemáticas (por exemplo, catastrofização, raciocínio emocional e abstração seletiva) ocorrem à medida que esquemas disfuncionais são ativados.
Como estratégias de enfrentamento os pacientes podem empregar estratégias compensatórias. Embora essas manobras cognitivas e comportamentais aliviem seu sofrimento emocional momentaneamente, em longo prazo as estratégias compensatórias podem reforçar e piorar crenças disfuncionais.
Há uma relação recíproca entre afeto e cognição, uma vez que o aumento da distorção cognitiva e emocional pode resultar de um reforçando o outro.

Procedimentos e técnicas

Conforme Beck ressalta, em primeiro lugar e antes de tudo, para realizar o empreendimento terapêutico é importante estabelecer uma boa relação de trabalho com o paciente, um procedimento terapêutico chamado de empirismo colaborativo. Paciente e terapeuta trabalham como uma equipe para avaliar as crenças do paciente, testando-as para verificar se estão corretas ou não e modificando-as de acordo com a realidade. Em segundo lugar, o terapeuta usa o questionamento socrático como um meio de guiar o paciente em um questionamento consciente que permitirá que este tenha um insight sobre seu pensamento distorcido, um procedimento chamado descoberta guiada.
Ao longo de todo tratamento, utiliza-se a abordagem colaborativa e psicoeducativa, com experiências específicas de aprendizagem desenhadas com o intuito de ensinar os pacientes a: 1) monitorar e identificar pensamentos automáticos; 2) reconhecer as relações entre cognição, afeto e comportamento; 3) testar a validade de pensamentos automáticos e crenças nucleares; 4) corrigir conceitualizações tendenciosas, substituindo pensamentos distorcidos por cognições mais realistas; e 5) identificar e alterar crenças, pressupostos ou esquemas subjacentes a padrões disfuncionais de pensamento.
O terapeuta cognitivo desempenha um papel ativo para auxiliar o paciente a identificar e focar em áreas importantes, propondo e ensaiando técnicas cognitivas e comportamentais específicas, e planejando colaborativamente tarefas entre as sessões. Um plano de tratamento para toda a terapia e a pauta para cada sessão são discutidos com o paciente.
O feedback dos pensamentos do paciente sobre a sessão em andamento e o tratamento como um todo é rotineiramente solicitado para criar a oportunidade de tratar e manejar quaisquer concepções equivocadas e mal-entendimentos que possam surgir durante a terapia. O terapeuta cognitivo precisa ser um bom estrategista para planejar procedimentos terapêuticos que tenham mais chance de produzir mudanças específicas para aquele determinado paciente.

Conceitualização de caso

Desde o início do tratamento, o terapeuta desenvolve uma conceitualização cognitiva
do paciente. A conceitualização de caso é um trabalho permanente no decorrer de um tratamento; à medida que novos dados clínicos  importantes são trazidos para a terapia, a conceitualização cognitiva será alterada e atualizada conforme necessário enquanto o tratamento evolui. Para preparar um plano de tratamento, uma conceitualização de caso individual é extremamente necessária, uma vez que guia as intervenções terapêuticas. A conceitualização de caso contém uma avaliação histórica e prospectiva de padrões e estilos de pensamento comuns em diversas situações de vida e a avaliação delas pelo paciente, podendo-se identificar um padrão cognitivo.
O terapeuta identificará o conjunto idiossincrático de crenças disfuncionais, vulnerabilidades específicas individuais e estratégias comportamentais que os pacientes usam para lidar com suas crenças nucleares.

Técnicas cognitivas e comportamentais
A separação de intervenções de TC em técnicas cognitivas e comportamentais é apenas para propósitos didáticos. E como sabemos, mudança cognitiva gera mudança de comportamento, e vice-versa. Uma série de técnicas diferentes pode ser usada.
Técnicas comportamentais poderiam ser mais usadas em casos de depressão grave nos quais há uma necessidade de promover a ativação comportamental do paciente. Ao contrário, quando o paciente não necessita primariamente de ativação comportamental, procedimentos mais puramente orientados à cognição podem ser aplicados. Para pacientes com transtornos de ansiedade, um entendimento dos princípios fundamentais do modelo cognitivo será provavelmente necessário antes da introdução de qualquer experimento comportamental.
Uma série de técnicas cognitivas é usada em TC, como identificação, questionamento e correção de pensamentos automáticos, reatribuição e reestruturação cognitiva, ensaio cognitivo e outros procedimentos terapêuticos de imagens mentais. Entre as técnicas comportamentais estão, por exemplo, agendamento de atividades, avaliações de prazer e habilidade, prescrições comportamentais de tarefas graduais, experimentos de teste da realidade, role-plays, treinamento de habilidades sociais e técnicas de solução de problemas.
Técnicas comportamentais são integradas num programa de tratamento de TC de muitas maneiras distintas. Grande parte da TC é devotada a técnicas de solução de problemas; os pacientes aprenderão a seguir os passos necessários, como definir o problema, gerar maneiras alternativas de resolvê-lo e implementar soluções alternativas.
O treinamento de habilidades sociais também pode ser uma ferramenta necessária como parte do plano de tratamento. Um paciente que teme situações sociais e apresente baixo desempenho social se beneficiará de role-plays com o terapeuta da situação temida para construir habilidades sociais inibidas e superar o problema. O terapeuta age como um modelo, para que os pacientes possam aprender a ter um desempenho social. Após suficiente role-play no consultório, os pacientes são
estimulados a desempenhar em situações da vida real o que eles construíram no consultório.
A TC foi desenvolvida para aplicação em formato individual, em grupo, para casais e famílias, adultos, adolescentes e crianças, em diferentes contextos clínicos. As indicações de TC são determinadas pelas variáveis do paciente e do terapeuta, mais do que pela natureza do transtorno.

Pesquisas em TC/TCC
Os achados de Butler et al. revelam que  a TC/TCC é eficaz nos casos de depressão unipolar em adultos, depressão unipolar em adolescentes, transtorno de ansiedade generalizado (TAS), síndrome do pânico com ou sem agorafobia, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e transtornos de depressão e ansiedade em crianças;  bulimia nervosa; nos tratamentos de relação conjugal conflituosa, raiva, transtornos somáticos na infância e diversas dores crônicas (isto é, comportamento de expressão da dor, nível de atividade, funcionamento do papel social e enfrentamento e avaliação cognitiva), bem como no transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) (ES = 0,19). A eficácia da TC para agressores sexuais é  se combinado com tratamentos hormonais  é mais efetivo para reduzir a recorrência nesta população. Finalmente, a revisão verificou que a TC era superior à terapia de apoio/não-diretiva em duas comparações para depressão em adolescentes (ES = 0,84) e duas comparações para TAS (ES = 0,71). A TCC também mostrou resultados promissores como adjuvante da farmacoterapia no tratamento da esquizofrenia. A TC/TCC também pode desempenhar um papel  terapêutico na prevenção de recaídas de esquizofrenia, conforme relatado em um estudo controlado randomizado de TC com grupo de alto risco. Os achados de outras metanálises também indicam que os protocolos de TC/TCC são mais efetivos do término de sintomas de pânico e ansiedade do que os tratamentos farmacológicos. Duas metanálises de TC e TCC demonstraram a eficácia dessas abordagens para fobia social e verificaram que uma abordagem “pura” de TC era mais eficiente do que fluoxetina. A TC padrão para TAS mostrou ter uma clara vantagem sobre a terapia comportamental no seguimento. A manutenção dos efeitos da TC em muitas doenças por períodos substanciais além da cessação do tratamento foi demonstrada pelas metanálises revisadas. Há evidências significativas para efetividade a longo prazo para depressão, ansiedade generalizada, pânico, fobia social, TOC, agressão sexual, esquizofrenia e transtornos internalizantes na infância. Nos casos de depressão e pânico, há evidências robustas e convergentes de metanálises de que a TC produz uma persistência de efeitos muito superior em longo prazo, com taxas de recorrência 50% menores que as de farmacoterapia. Para o transtorno bipolar, também se relatou a aplicação da TC como tratamento adjuvante na prevenção de recaídas e sua boa relação custo-efetividade. Lam et al., em um ensaio controlado randomizado de TCC para prevenção de recaídas no transtorno bipolar, encontraram que os pacientes tratados com TCC tiveram resultados significativamente melhores (por exemplo, episódios bipolares em menor número e mais curtos, menor número de hospitalizações, menor variabilidade de sintomas maníacos etc.) no seguimento de um ano. Algumas outras aplicações com amparo empírico da TC/TCC incluem anorexia nervosa, transtorno dismórfico corporal, colecionismo patológico, jogo patológico, TEPT em crianças que sofreram abuso, TOC em crianças e transtorno afetivo sazonal. Ensaios controlados randomizados também fornecerem forte amparo empírico para a eficácia de intervenções cognitivas, muitas vezes como um adjunto à terapia, no tratamento de uma ampla variedade de condições médicas, incluindo doença coronariana, hipertensão, câncer, dores de cabeça, dor crônica, dor lombar crônica, síndrome da fadiga crônica, artrite reumatóide, síndrome pré-menstrual e síndrome do cólon irritável.  Estudos de resultados adicionais documentaram o papel benéfico da TC para pacientes com diversos transtornos médicos na redução da depressão e na melhora da qualidade de vida global. Em anos recentes, pesquisas encontraram correlatos neuropsicológicos de pensamentos e crenças disfuncionais na depressão. Estudos de neuroimagem demonstraram os efeitos da TC em alterações cerebrais funcionais e fisiológicas associados com TC para depressão. Apesar dos resultados muito interessantes, este assunto está além do escopo deste artigo de revisão. Entretanto, é importante ressaltar o fato de que estudos desta natureza podem expandir enormemente nosso entendimento da relação mente cérebro e de como as técnicas comportamentais e cognitivas afetam a função cerebral.



Fundamentos, modelos conceituais, aplicações e pesquisa da terapia cognitiva





A TCC é usada como um termo mais amplo que inclui tanto a TC padrão quanto combinações ateóricas de estratégias cognitivas e comportamentais. O modelo cognitivo vem sendo refinado com o passar dos anos.


 Entretanto, as características essenciais da TC persistiram:

·       Ênfase  do pensamento distorcido
·       Avaliação cognitiva irrealista de eventos sobre os sentimentos e comportamentos do indivíduo.

Fundamento histórico e filosófico das TCC

No início da década de 1960, uma “revolução cognitiva” começou a emergir embora os primeiros textos centrais sobre modificação cognitiva tenham aparecido somente na década de 1970.
A pesquisa de Albert Bandura suscitou questões sobre o modelo comportamental tradicional disponível até então e apontou as limitações de uma abordagem comportamental não mediacional para explicar o comportamento humano.
Beck, Ellis, Cautela,Meichenbaum e Mahoney foram as figuras iniciais mais importantes da cognitiva e  cognitiva-comportamental.

As TCCs podem ser classificadas em três divisões principais:

1) terapias de habilidades de enfrentamento – fornece ao paciente  um repertório de habilidades  e instrumentos para lidar com uma série de situações problemáticas;
 2) terapia de solução de problemas -  desenvolvimento de estratégias gerais para lidar com uma ampla variedade de dificuldades pessoais; e
3) terapias de reestruturação - que enfatizam a pressuposição de que problemas emocionais são uma consequência de pensamentos mal adaptativos,  sendo a meta do tratamento reformular pensamentos distorcidos e promover pensamentos adaptativos.

Alguns desses modelos conceituais de modificação cognitivo-comportamental, conforme apresentados por Dobson & Dozois, estão brevemente resumidos abaixo.

O treinamento de auto-instrução →  desenvolvido na década de 70 por Donald Meichenbaum.
Ø com foco na relação entre auto-instrução verbal e comportamento.
Ø ênfase nas tarefas graduais, modelagem cognitiva, na orientação do treinamento mediacional e auto-reforço.
Ø herança comportamental de Meichenbaum.

O treinamento de inoculação de estresse → também foi desenvolvido por Meichenbaum.
Ø Abordagem de enfrentamento.
Ø Aprendendo a lidar com níveis leves de stres o paciente se torna “inoculado contra altos níveis de stres.

Solução de problemas → proposta em 1971 por D’Zurilla e Goldfried.
Ø  Treinamento de autocontrole.
Ø  Treinar habilidades básicas de solução de problemas aplicadas a situações reais.
Ø  Proposta: promover mudança generalizada do comportamento.
Ø  Utilizada como prevenção e manejo de estresse, manejo da raiva, depressão e enfrentamento do câncer.

A terapia racional emotiva comportamental (TREC)  → desenvolvida por Albert Ellis.
Ø  Terapia de reestruturação
Ø  Modelo ABC → A – avento ativo, B – crenças individuais, C – consequências emocionais, comportamentais e fisiológicaas..
Ø  Objetivo; identificar crenças irracionais e modificá-las pelo convencimento.

A terapia construtivista → início da década de 80.
Ø  abordagem cognitiva estrutural
Ø  enfatiza o processo de pensamento e a geração de significado.

Em anos recentes, muitas outras abordagens cognitivo comportamentais emergiram e evoluíram do modelo conceitual original cognitivo e cognitivo-comportamental. A terapia do esquema, desenvolvida por Jeffrey Young, e a terapia comportamental dialética (DBT), desenvolvida por Marsha Linehan, são dois bons exemplos de abordagens de TCC usadas para tratar indivíduos com psicopatologia mais grave, especialmente transtorno de personalidade borderline.

 Semelhanças e diferenças entre as TCCs

As abordagens em TCC compartilham bases comuns, embora haja diferenças consideráveis em princípios e procedimentos.
Os pioneiros no desenvolvimento das intervenções vieram de diferentes fundamentos teóricos:
1.    Albert Ellis e Aaron Beck → psicanálise
2.    Meichenbaum, Goldfried e Mahoney → modificação do comportamento

As abordagens atuais em TCC compartilham três proposições fundamentais:
1.    Papel mediacional da cognição – há sempre um processo cognitivo e avaliação de eventos internos e externos que podem afetar a resposta a esses eventos.
2.    atividade cognitiva pode ser monitorada, avaliada e medida.
3.    A mudança de comportamento pode ser mediada por essas avaliações cognitivas. (pode ser uma evidência indireta de mudança cognitiva)


As abordagens voltadas estritamente para a mudança de comportamento não são cognitivo-comportamentais; da mesma forma, qualquer terapia unicamente baseada em mudança cognitiva não é cognitivo comportamental.
A terapia que não inclua a proposição do modelo mediacional como componente importante do plano de tratamento não está incluída no escopo da TCC, e o termo “cognitivo-comportamental” não pode ser aplicado.
 Em resumo, uma característica definidora da TCC é o conceito de que os sintomas e os comportamentos disfuncionais são cognitivamente mediados e, logo, a melhora pode ser produzida pela modificação  do pensamento e de crenças disfuncionais.
As TCCs tem limite de tempo de tratamento, com muitos manuais de tratamentos recomendando 12-16 sessões para depressão e ansiedade não complicadas. Transtornos de personalidade e outros transtornos crônicos levam mais tempo, talvez mais de 1-2 anos de tratamento.
Outro ponto em comum: o paciente é o agente ativo de seu tratamento.
O pressuposto de controle do paciente é possível pelo tipo de problemas com os quais as TCCs clássicas tipicamente lidam, que incluem transtornos e problemas específicos, problemas de autocontrole e habilidades gerais de solução de problemas.

Pontos em comum das TCCs:
Ø Educativas por natureza.
Ø Modelo terapêutico pode ser ensinado e a lógica para a intervenção é comunicada ao paciente.
Ø Têm por objetivo implícito que o paciente aprenderá sobre o processo terapêutico ao longo da terapia.
Ø Os pacientes tornam-se seus próprios terapeutas.

 Conforme Dobson & Dozois apontaram, TCCs em geral envolvem toda uma variedade de abordagens, a TC conforme desenvolvida por Beck, com seu conjunto próprio de princípios e metodologias e técnicas muito específicas, é razoavelmente uniforme.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

História Social da Criança e da Família


Felipe Ariés



Resgatar os antecedentes históricos da infância é dar voz a diferentes documentos hoje pesquisados e que em determinados períodos testemunharam o papel da criança na sociedade. Reis, padres, professores, pais, mães, vizinhos, gente rica, gente pobre são porta-vozes da construção da infância no passado e continuam a ser no presente. Ou seja, a concepção de criança é vivida e apreendida a partir das construções feitas pelos adultos, nas quais, muitas vezes, a criança não pode discursar, defender-se ou falar sobre si mesma. Se pudéssemos dar voz às crianças que estão nas casas, ruas, instituições, buscando a construção de sua própria história, é possível que elas nos relatem situações que envolvem sentimentos e sensações diferentes da perspectiva do adulto. Sabemos que a história da criança é registrada a partir do olhar dos adultos, pois a criança não pode registrar sua própria história. Se fosse o caso de darmos voz a essas crianças, certamente ouviríamos histórias de crianças relatando momentos de alegria, encontrados no amor da família, no direito respeitado, nos espaços para brincadeiras, enfim, nos encantos de sua vida, a partir da vivência de situações agradáveis e felizes. Por outro lado, ouviríamos, também, histórias de incompreensões sofridas, tristezas, atos de injustiça, violência física e moral, desamparo, enfim, os desencantos com a vida a que um grupo grande de crianças está exposto. Diante disso, temos uma indicação de que a infância não acontece da mesma forma para todas as crianças e as histórias se diversificam a cada experiência. A visão sobre a infância, atualmente, como um período específico pelo qual todos passam é uma construção definida no momento presente. A questão de que todos os indivíduos nascem bebês e serão crianças até um determinado período, independente da condição vivida, é inegável, entretanto, tal premissa nem sempre foi percebida dessa maneira e por diversos períodos se questionou qual era o tempo da infância e quem era a criança. O pesquisador francês Philippe Ariès, em sua obra História Social da Criança e da Família, publicada em 1960, vai apontar que o conceito ou a idéia que se tem da infância foi sendo historicamente construído e que a criança, por muito tempo, não foi vista como um ser em desenvolvimento, com características e necessidades próprias, e sim como um adulto em miniatura. Nesse sentido, a história da infância surge como possibilidade para muitas reflexões sobre a forma como entendemos e nos relacionamos atualmente com a criança. Assim, gostaríamos de discutir a respeito da construção do conceito de infância a partir de duas perspectivas: a de Philippe Ariès, de que o sentimento da infância teria surgido apenas na Modernidade, e dos apontamentos teóricos de Moysés Kuhlmann Jr., Jacques Gélis, Daniele Alexandre-Bidón e Pierre Riché, que, em suas pesquisas, indicam a presença de uma preocupação com as crianças em períodos anteriores, como a Idade Média.

ARIÈS é considerado o precursor da história da infância, pois foi através de estudos realizados por ele com variadas fontes, como a iconografia religiosa e leiga, diários de família, dossiês familiares, cartas, registros de batismo e inscrições em túmulos, que surgem os primeiros trabalhos na área de história, apontando para o lugar e a representação da criança na sociedade dos séculos XII ao XVII. Baseando-se na história das mentalidades2, ARIÈS (1981, p. 26) afirma:

(...) é sempre, quer ou não, uma história comparativa e regressiva. Partimos necessariamente do que sabemos sobre o comportamento do homem de hoje, como de um modelo ao qual comparamos os dados do passado . com, a condição
de, a seguir, considerar o modelo novo, construído com o auxílio dos dados do passado, como uma segunda origem, e descer novamente até o presente, modificando a imagem ingênua que tínhamos no início.

A história da criança contada por Philippe Áries


No período de grandes transformações históricas, no caso, do século XII ao XVII, foco de localização de sua pesquisa, a infância tomou diferentes conotações dentro do imaginário do homem em todos os aspectos sociais, culturais, políticos e econômicos, de acordo com cada período histórico. A criança seria vista como substituível, como ser produtivo que tinha uma função utilitária para a sociedade, pois a partir dos sete anos de idade era inserida na vida adulta e tornava-se útil na economia familiar, realizando tarefas, imitando seus pais e suas mães, acompanhado-os em seus ofícios, cumprindo, assim, seu papel perante a coletividade. Com relação às idades da vida humana, a pesquisa de ARIÈS aponta que a forma de representar a cronologia humana passou por várias mudanças, indicando diferentes formas de representar esses períodos. Tais representações utilizariam principalmente os elementos da natureza, estudo dos astros, aspectos das crenças populares, fenômenos naturais e sobrenaturais, os quais faziam parte de um contexto governado pelas leis da teologia, enfatizando uma visão mística. Dessa forma, as representações da idade do homem pareciam abstratas, além disso, muitos morriam antes de percorrer todos os ciclos da vida. No caso da infância propriamente dita, o autor, partindo de relatos e textos dos século XII ao XVIII, demonstra que as pessoas definiam a idade da criança como .... a primeira idade é a infância que planta os dentes, e essa idade começa quando nasce e dura até os sete anos, e nessa idade aquilo que nasce é chamado de enfant (criança), que quer dizer não falante, pois nessa idade a pessoa não pode falar bem nem formar perfeitamente suas palavras.... (ARIÉS, 1981, p. 36). Nessa perspectiva, a fase da infância seria caracterizada pela ausência da fala e de comportamentos esperados, considerados como manifestações .irracionais.. A questão da ausência da racionalidade também é apontada por PLATÃO, SANTO AGOSTINHO e DESCARTES (GANEBIN, 1997). Nesse sentido, a infância se contrapõe à vida adulta, pois os comportamentos considerados racionais, ou providos da razão, seriam encontrados apenas no indivíduo adulto, identificando, assim, o adulto como o homem que pensa, raciocina e age, com capacidade para alterar o mundo que o cerca; tal capacidade não seria possível às crianças. Observa-se que a passagem da vida infantil para a vida adulta seria uma condição a ser superada: .... a passagem da criança pela família e pela sociedade era muito breve e muito insignificante para que tivesse tempo ou razão de forçar a memória e tocar a sensibilidade.... (ARIÉS, 1981, p. 10). A infância nesse contexto seria comparada à velhice, pois se, de um lado, temos a infância constituída pela falta de razão, por outro, teríamos a velhice marcada pela senilidade .... porque as pessoas velhas já não têm os  sentidos tão bons como já tiveram, e caducam em sua velhice (...) o velho está sempre tossindo, escarrando e sujando.... (ARIÈS, 1981, p. 37). As demais idades, no caso, a juventude e a vida adulta, caracterizar-se-iam pela sua força, virilidade e principalmente pelas funções produtivas dentro da vida social e coletiva. Entende-se que foi uma época voltada ao poder da juventude. Considerando essa questão, percebemos que, ainda hoje, na nossa sociedade, es a situação é recorrente, à medida que há uma ênfase na valorização do indivíduo produtivo, excluindo-se crianças e idosos de diversos setores e espaços sociais. Assim, a história da criança contada por ARIÈS, destaca que as crianças foram tratadas como adultos em miniatura: na sua maneira de vestir-se, na participação ativa em reuniões, festas e danças. Os adultos se relacionavam com as crianças sem discriminações, falavam vulgaridades, realizavam brincadeiras grosseiras, todos os tipos de assuntos eram discutidos na sua frente, inclusive a participação em jogos sexuais. Isto ocorria porque não acreditavam na possibilidade da existência de uma inocência pueril, ou na diferença de características entre adultos e crianças: .... no mundo das fórmulas românticas, e expressão particular, e sim homens de tamanho reduzido.... (ARIÈS, 1981, p. 51). Dessa forma, as crianças eram submetidas e preparadas para suas funções dentro da organização social. O desenvolvimento das suas capacidades se dá a partir das relações que mantêm com os mais velhos. Portanto, percebe-se uma distância da idade adulta e da infância em perspectiva cronológica e de desenvolvimento biológico, pois a infância é retratada pelas afinidades que o adulto estabelece com a criança, ou seja, tudo era permitido, realizado e discutido na sua presença. O autor destaca, ainda, que foram séculos de altos índices de mortalidade e de práticas de infanticídio. As crianças eram jogadas fora e substituídas por outras sem sentimentos, na intenção de conseguir um espécime melhor, mais saudável, mais forte que correspondesse às expectativas dos pais e de uma sociedade que estava organizada em torno dessa perspectiva utilitária da infância. O sentimento de amor materno não existia, segundo o autor, como  nessa passagem, é possível apreender tal idéia: ....uma vizinha, mulher de um relator, tranqüilizar assim uma mulher inquieta, mãe de cinco pestes, e que acabara de dar à luz:
Antes que eles te possam causar muitos problemas, tu terás perdido a metade, e quem sabe todos..... (ARIÈS, 1981, p. 56). Assim, as crianças sadias eram mantidas por questões de necessidade, mas a mortalidade também era algo aceito com bastante naturalidade. Outra característica da época era entregar a criança para que outra família a educasse. O retorno para casa se dava aos sete anos, se sobrevivesse. Nesta idade, estaria apta para ser inserida na vida da família e no trabalho. Nesse contexto, as mudanças com relação ao cuidado com a criança, só vêm ocorrer mais tarde, no século XVII, com a interferência dos poderes públicos e com a preocupação da Igreja em não aceitar passivamente o infanticídio, antes secretamente tolerado. Preservar e cuidar das crianças seria um trabalho realizado exclusivamente pelas mulheres, no caso, as amas e parteiras, que agiriam como protetoras dos bebês, criando uma nova concepção sobre a manutenção da vida infantil, ....como se a consciência comum só então descobrisse que a alma da criança também era imortal. É certo que essa importância dada à personalidade da criança se ligava a uma cristianização mais profunda dos costumes.... (ARIÈS, 1981, p. 61). Dessa forma, surgiram medidas para salvar as crianças. As condições de higiene foram melhoradas e a preocupação com a saúde das crianças fez com que os pais não aceitassem perdê-las com naturalidade. No século XIV, devido ao grande movimento da religiosidade cristã, surge a criança mística ou criança anjo; ....essa imagem da criança associada ao Menino Jesus ou Virgem Maria, causa consternação, ternura nas pessoas.. (OLIVEIRA, 1999, p. 22). A representação da criança mística, aos poucos, vai se transformando, assim como as relações familiares. A mudança cultural, influenciada por todas as transformações sociais, políticas e econômicas que a sociedade vem sofrendo, aponta para mudanças no interior da família e das relações estabelecidas entre pais e filhos. A criança passa a ser educada pela própria família, o que fez com que se despertasse um novo sentimento por ela. ARIÈS caracteriza esse momento como o surgimento do sentimento de infância, que será constituído por dois momentos, chamados por ele de paparicação e apego.
A paparicação seria um sentimento despertado pela beleza, ingenuidade e graciosidade da criança. E isto fez com que os adultos se aproximassem cada vez mais dos filhos. Assim, os gracejos das crianças eram mostrados a outros adultos, fazendo da criança uma espécie de distração, tornando-se bichinhos de estimação., como cita ARIÈS (1981, p. 68): ....ela fala de um modo engraçado: e titota, tetita y totata..... e (..) .eu a amo muito. (...) ela faz cem pequenas coisinhas: faz carinhos, bate, faz o sinal da cruz, pede desculpas, faz reverência, beija a mão, sacode os ombros, dança, agrada, segura o queixo: enfim, ela é bonita em tudo o que faz. Distraio-me com ela horas a fio.....
Por essa necessidade de manter uma pessoa provida de tanta beleza e graça, surgem medidas para salvá-la e garantir sua sobrevivência. As condições de higiene foram melhoradas e a preocupação com a saúde das crianças fez com os pais não aceitassem perder seus filhos com naturalidade e, os que perdiam, aceitavam como sendo a vontade de Deus, segundo a orientação religiosa da época. Este sentimento, despertado primeiramente nas mulheres, não era compartilhado por todas as pessoas; algumas ficavam irritadas com a nova forma de tratar as crianças. ARIÈS cita, em suas referências, a hostilidade de MONTAIGNE com o novo comportamento adotado: ....não posso conceber essa paixão que faz com as pessoas beijem as crianças recém-nascidas, que não têm ainda movimento na alma, nem forma reconhecível no corpo pela qual se possam tornar amáveis, e nunca permiti de boa vontade que elas fossem alimentadas na minha frente.... (MONTAIGNE , apud, ARIÈS, 1981, p. 159).
O sentimento de apego surge a partir do século XVII, como uma manifestação da sociedade contra a paparicação da criança, e propõe separá-la do adulto para educá-la nos costumes e na disciplina, dentro de uma visão mais racional.
Assim, foi dentro desse contexto moral que a educação das crianças foi inspirada, através do posicionamento de moralistas e educadores e, principalmente, com o surgimento da família nuclear gerada dentro dos padrões da cúria: o modelo de família conservadora, símbolo da continuidade parental e patriarcal que marca a relação pai, mãe e criança. A preocupação da família com a educação da criança fiz com que mudanças ocorressem e os pais começassem, então, a encarregar-se de seus filhos. Conseqüentemente, houve a necessidade da imposição de regras e normas na nova educação e a formação de uma criança melhor doutrinada atendendo à nova sociedade que emergia. Tal concepção de indivíduo que aparece faz com que a criança seja alvo do controle familiar ou do grupo social em que ela está inserida.
Com o surgimento desse novo homem, moderno, aparecem também as primeiras instituições educacionais, permitindo a concepção de que os adultos .compreenderam a particularidade da infância e a importância tanto moral como social e metódica das crianças em instituições especiais, adaptadas a essas finalidades.... (ARIÈS, 1981, p. 193).
Com a evolução nas relações sociais que se estabelecem na Idade Moderna, a criança passa a ter um papel central nas preocupações da família e da sociedade. A nova percepção e organização social fizeram com que os laços entre adultos e crianças, pais e filhos, fossem fortalecidos. A partir deste momento, a criança começa a ser vista como indivíduo social, dentro da coletividade, e a família tem grande preocupação com sua saúde e sua educação. Tais elementos são fatores imprescindíveis para a mudança de toda a relação social.

Um olhar diferente sobre a infância de Áries

Não podemos negar a contribuição de Phillipe ARIÈS à história da criança e a indicação de que ela só aparece na Idade Moderna, no entanto, contrapondo-se a essa proposição, Moysés KUHLMANN JR., em sua obra Infância e Educação Infantil: uma abordagem histórica, referenciada por Pierre RICHÉ e Daniele ALEXANDRE BIDON, além de Jacques GÉLIS, aponta novas re-interpretações em suas pesquisas procurando a infância em períodos anteriores. Esses autores, dando voz a diferentes documentos históricos, consideram que a percepção da infância pelos adultos existia em idades mais remotas, ou seja, havia a preocupação com a sobrevivência da criança, com a sua educação, sua religiosidade, os cuidados com o seu corpo, com sua alimentação, enfim, com uma época de aprendizagens, com brinquedos, roupas e construção de móveis e objetos apropriados à criança. Esse cruzamento de olhares nos leva a pensar em outras perspectivas sobre a concepção da infância. KUHLMANN JR. (1998, p. 22) nos dá pistas para compreendermos o período quando ele diz: .O sentimento de infância não seria inexistente em tempos antigos ou na Idade Média, como estudos posteriores mostraram. Em livros escritos pelos historiadores Pierre Riché e Daniele Alexandre-Bidon (...), fartamente ilustrados com pinturas e objetos, arrolam-se os mais variados testemunhos da existência de um sentimento da especificidade da infância naquela época.. KUHLMANN JR. salienta que a construção da infância de ARIÈS é uma percepção generalizante e linear, pois sua pesquisa fundamenta-se em fontes de famílias abastadas e o historiador francês pressupõe que o sentimento do amor pelas crianças surge primeiramente no interior dessas famílias, principalmente a partir da particularização da educação de filhos homens. Ficaram à margem as fontes históricas populares, com poucos registros da sua infância, devido à precariedade das condições econômicas. Mesmo em abordagens que tomam a infância em sua referência etimológica, como os sem-voz, sugerindo uma certa identidade com as perspectivas da história vista de baixo, a história dos vencidos, essa visão monolítica permanece e mantém um preconceito em relação às classes subalternas, desconsiderando a sua presença interior nas relações sociais. Embora reconhecendo o papel preponderante que os setores dominantes exercem sobre a vida social, as fontes disponíveis, como, por exemplo, o diário de Luís XIII, utilizado por Ariès, geralmente favorecem a interpretação de que essas camadas sociais teriam monopolizado a condução do processo de promoção do respeito à criança. (KUHLMANN JR, 1998, p. 24).
Neste sentindo, percebe-se que a história apontada por ARIÈS é uma história de meninos ricos, confirmando uma educação diferenciada às duas infâncias, da criança rica para a criança pobre. Por um lado, temos a criança rica, evidenciada principalmente na particularização da educação de meninos, enclausurados num espaço íntimo com sua família, ocupados com aprendizagens para a vida social, com regras de etiqueta e de moralidade que deveriam saber e seguir, bem como a aprendizagem de música, dança, leitura e a utilização de roupas adequadas às características da criança. Temos também os chamados .precoces. ou .prodígios. por uma elite que acelerava o desenvolvimento de seus filhos homens, para fazer demonstrações de seus dotes. Por outro lado, é possível inferir a existência da infância pobre percebida nas crianças do povo, filhos de camponeses e artesões, vivendo em espaços compartilhados com todos, participando das conversas com os adultos, nas praças com seus folguedos infantis, nas reuniões noturnas, sem modos e talvez vestidas como adultos. Esta caracterização das crianças do povo como indivíduos sem modos, livres, com comportamentos inadequados, deve-se ao fato de que o conceito de pudor e vergonha são valores que foram sendo construídos a partir das relações das famílias abastadas, sendo uma relação que se constrói verticalmente das classes altas para as baixas. Todavia, isso não quer dizer que o sentimento ou a educação, mesmo informal, das crianças pobres não existisse. Portanto, as aprendizagens ocorriam nas famílias de todas as crianças, pobres e ricas, e a cultura dessas duas infâncias tem como parâmetro os laços com o mundo dos adultos, possibilitado, principalmente, pela liberdade em espaços compartilhados; a criança presenciava experiências que resultavam dessas relações: aprendia convivendo. Nessa ótica da importância das relações familiares com a criança, Jacques GÉLIS vai destacar que tais relações eram muito importantes, pois todos compartilhavam em tudo, ou seja, um dependia do outro: .nesse imaginário da vida e do corpo, a criança era considerada um rebento do tronco comunitário, uma parte do grande corpo coletivo que, pelo engaste das gerações, transcendia o tempo. Assim, pertencia à linhagem tanto quanto aos pais. Neste sentido, era uma criança pública (GÉLIS, 1991, p. 313). Diante disso, observa-se que a presença da criança no seio familiar era muito significativa, pois ela marca a sucessão parental e, sendo ela considerada pública, evidencia-se a preocupação que a família tinha em garantir a sobrevivência da criança e, principalmente, sua educação, pois, influenciada pelos familiares ou vizinhos, a infância  era uma época de aprendizagens: .as aprendizagens da infância e da adolescência deviam, pois, ao mesmo tempo fortalecer o corpo, aguçar os sentidos, habilitar o indivíduo a superar os revezes da sorte e, principalmente, a transmitir também a vida, a fim de assegurar a continuidade da família. (GÉLIS, 1991, p. 315). Diante deste contexto, o pai e a mãe seriam os responsáveis por esta primeira educação, diferente do que ARIÈS destaca em sua pesquisa  a família e principalmente a mãe não possuiriam a sensibilidade ou o apego pelos seus filhos.
Assim, não podemos generalizar afirmando que toda a sociedade medieval  pais, mães, enfim todos que habitavam com as crianças  visse as crianças apenas como servidora e sujeito produtivo, numa perspectiva utilitária da infância, nem que todo o sentimento, no caso, o amor, envolvido nestas relações ficasse alheio a elas ou não existisse. Quanto a isso, o autor vai dizer que .a indiferença medieval pela criança é uma fábula e, no século XVI, como vimos, os pais se preocupavam com a saúde e a cura de seu filho. Assim, devemos interpretar a afirmação do sentimento da infância no século XVIII.(GÉLIS4 apud KUHLMANN JR, 1998, p. 23).
Sendo a educação ou a institucionalização da criança responsabilidade da família, percebe-se que os filhos são frutos da possibilidade da ascensão social. Pais enxergam através de seus filhos a possibilidade da administração dos bens familiares e, conseqüentemente, a ampliação dessa possessão. A educação seria, pois, o cerne desse processo de elevação. Observa-se que, mesmo que as crianças ricas tivessem alguns privilégios com relação à sua educação, as crianças das classes populares possuíram também proteção, mesmo não sendo especificadamente da família: se é difícil encontrar registros das classes populares, há um amplo conjunto de documentos no âmbito da vida pública, envolvendo as iniciativas destinadas ao atendimento aos pobres e aos trabalhadores. (KUHLMANN JR, 1998, p. 25).
Neste sentido, o sentimento da afetividade dos pais pela criança parece ser expressivo. Ainda que o amor materno seja um fator muito particular de cada mulher, é inegável que a capacidade de gerar filhos só é possível a ela. Entretanto, o cuidar das crianças ou a preocupação com sua educação passa a ser uma das responsabilidades atribuídas à mulher em uma sociedade que emergia. Nesse contexto, concordamos com GÉLIS quando ele aponta que por certo, a natureza continua a falar em favor do filho criado pela mãe; porém esta tem apenas deveres; doravante pretende ter também o direito de viver e recebe a aprovação do marido quando manifesta o desejo de manter um corpo íntegro e atraente. (GÉLIS, 1991, p. 321) Portanto, as referências nos indicam que vínculos foram estabelecidos, pois seria improvável que os adultos ficassem tantos séculos entorpecidos sem manifestarem qualquer sentimento pelas crianças.

Fonte:
ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Tradução de Dora Flaksman. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2006.

Aspectos Psicossociais E Culturais Da Construção Da Família

Aspectos Psicossociais E Culturais Da Construção Da Família


A antropologia nos dá elementos para entender que a Natureza nunca foi soberana, ou seja, não é a maneira determinante de constituir laços na humanidade; ao contrário, acompanhando o quão criativas as diferentes culturas podem ser no encontro de soluções para os problemas que se colocam, podemos reconhecer que o laço social e simbólico sempre prevalece sobre o dado biológico.
As noções de maternidade e paternidade são freqüentemente confundidas com um funcionamento supostamente “natural” da reprodução humana, uma vez que se apresentam sustentadas por um sistema de valores e idéias que tem velada a sua natureza de construção cultural.
A maternidade, categoria também presente nas discussões acerca do “ser feminino” é entendida aqui como uma construção social. Como tal, está diretamente associada às modificações pela qual a família tem passado a partir de transformações que permitiram, entre outras questões, a organização dos Estados modernos e a instalação da ordem econômica burguesa, principalmente do século XVII em diante, em um movimento de constituição das chamadas sociedades disciplinares.
Temática bastante abordada nos diversos campos do saber, a maternidade carece ainda de discussões que tenham uma perspectiva mais refutadora, dada a ‘sacralidade’ que a cerca. Diria que nas sociedades ocidentais essa ênfase é ainda mais evidente. A maternidade parece permanecer como um valor, sendo função social da mulher. Permanece ainda um ranço herdado das ciências biológicas que associa o corpo biológico da mulher ao corpo social. Há que se pensar a maternidade como componente preponderante das estruturas do tecido social. Ainda que existam variações de interpretações sobre a posição da mulher nas diferentes culturas que assinalam sua condição como de maior ou menor exclusão da esfera pública ou política das sociedades, o gênero significa nesse texto a distinção entre atributos culturais assinalados a cada um dos sexos e a dimensão biológica dos seres humanos.
A ordem simbólica que se origina do gênero diz respeito, antes da descontinuidade do que de qualquer outra propriedade intrínseca ao objeto; as categorias de gênero são sempre culturalmente determinadas. Por conseguinte, é de significativa importância retirar o ranço de ‘natural’ que existe nos discursos correntes sobre posturas ‘de homem e de mulher’, suas posturas, atitudes, valores. Essas identidades socialmente construídas acabam enfatizando uma perspectiva relacional e sistêmica que prevalece nas construções de papéis e identidades para ambos os sexos. É preciso retirar-lhes esse ‘traço natural’, sobretudo na caso da mulher, cuja vinculação biológica do corpo a remete ao lugar de maternidade por sua associação ao trabalho de cuidado com a prole. Há uma carga simbólica de
atributo pré-social da condição feminina ao papel reprodutivo.
As raízes das ações que são explicadas como ‘instintivas’ ou ‘naturais’ para algumas correntes do pensamento, podem ser localizadas no repertório das práticas que as mulheres acumulam desde a tenra infância e são eivados de valores muito específicos, de cada agrupamento culturalmente estabelecido. O que pode se desdobrar num conflito, como pode ser escutado no cotidiano, por exemplo: “toda mulher possui um instinto maternal”; “toda mulher nasce com o dom de ser mãe”; entre outras das muitas frases que estão espalhadas por todos os lados na sociedade e no imaginário feminino, como simples, inofensivas, mas que acabam por se desdobrar em sofrimento. Nos mais diversos cenários. A ‘necessidade de ser mãe’, portanto, aparece sem questionamento, como ‘natural’.



Fonte:
Construção Social Da Maternidade E Infância
http://74.125.47.132/search?q=cache:IfiMXQ7Jw6IJ:www.fazendogenero8.ufsc.br/sts/ST37/Fontenele-Tanaka_37.pdf+constru%C3%A7%C3%A3o+social+da+maternidade+e+inf%C3%A2ncia&cd=7&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&lr=lang_pt

KAREN HORNEY


VIDA E PRINCIPAIS CONCEITOS



Na fase de amadurecimento da brilhante e ambiciosa garota Karen Danielso, em Hamburgo, Alemanha, no fim do século XIX, ela enfrentou muitos desafios pessoais e sociais.
Seu pai, capitão de navio, perdera sua primeira esposa depois de ter quatro filhos com ela. Ele se casou novamente com a atraente e sofisticada Clotilde, dezoito anos mais nova do que ele. Eles tiveram um filho e, quatro anos mais tarde, uma filha - Karen. Ela, portanto, cresceu em um mundo de meio-irmãos que nunca aceitaram totalmente os novos rebentos da família (Horney, 1980; Quinn, 1987).
O pai de Karen, com 50 anos quando ela nasceu, era um homem severo e muito religioso. Fundamentava suas convicções sobre a inferioridade das mulheres nas interpretações que fazia da Bíblia e governava a família com pulso firme. Embora fosse mais abertamente afeiçoado a Berndt, irmão de Karen, preocupava-se com Karen. Às vezes, trazia-lhe presentes de terras distantes e chegou até a permitir que ela o acompanhasse em várias viagens a bordo do navio. Desse modo, Karen cresceu com sentimentos conflitantes em relação ao pai; ela o admirava, embora se sentisse menos amada por ele do que gostaria. Entretanto, ela e a mãe eram muito íntimas. Conquanto Karen não fosse pouco atraente, ela se achava feia e muito cedo estabeleceu para si mesma que, se não podia ser bonita, pelos menos podia ser inteligente. Adorava a escola e tornou-se excelente aluna. Por volta dos 12 anos, resolveu que seria médica, opção que não agradou a seu pai. Porém, com a insistência de Karen, Berndt e Clotilde, acabou concordando em fornecer o dinheiro da mensalidade para que ela frequentasse uma escola pré-médica.
Na sociedade como um todo, as relações entre os sexos eram tumultuadas nessa época. As mulheres clamavam por mais direitos e oportunidades educacionais. Karen foi uma das primeiras mulheres a receber permissão para freqüentar o ensino médio (o gymnasium alemão). As escolas médicas estavam apenas começando a abrir as portas para as mulheres. Em 1906, Karen iniciou a residência médica em Freiburg, Alemanha. Foi durante esse período que ela conheceu Oskar Horney (pronuncia-se Horn-ai); ambos rapidamente desenvolveram uma forte amizade. Eles se casaram em 1909 e, por volta de 1910, sua primeira filha já estava a caminho. Esse prometia ser um ano estressante e de várias mudanças para Karen. Ela havia se casado há pouco tempo, estava grávida e cursava psicanálise com Karl Abraham, discípulo de Freud, para se preparar para exercer a psiquiatria. E, não bastasse tudo isso, sua mãe morreu um pouco antes de ela dar à luz. Karen e Oskar tiveram três filhas ao todo e cada uma delas chegou a comentar mais tarde que Karen era um tanto quanto desprendida delas quando eram ainda crianças. Embora parte disso sem dúvida fosse intencional, no sentido de estimular a independência (algo em que tanto Karen quanto Oskar acreditavam firmemente), havia a falta de afeto e interesse em seu estilo de educar as filhas. Isso é particularmente curioso se considerarmos os próprios sentimentos de Karen, negligência durante a infância, e suas posteriores teorias sobre o papel da indiferença parental como estimuladora de neuroses. No início da década de 20, Karen e o marido começaram a se distanciar pouco a pouco. Então, um acontecimento trágico os afligiu. Em 1923, os investimentos financeiros de Oskar azedaram e, com a subida desenfreada da inflação, seu salário não era mais suficiente para evitar a falência da família. Além disso, ele foi acometido de meningite aguda, que o deixou fraco e frágil. Foi ainda durante esse ano que Karen perdeu seu querido irmão Berndt, vítima de infecção no pulmão. Tanto Karen quanto seu marido caíram em depressão e, por volta de 1926, não havia dúvida de que o casamento não sobreviveria. Karen e suas três filhas mudaram-se nesse mesmo ano para uma propriedade delas, mas Karen e Oskar só se divorciaram em 1939.
As idéias de Karen Horney até certo ponto eram semelhantes às de Adler. Horney acreditava, assim como Adler, que uma das descobertas mais importantes de uma criança é a própria impotência, e que é a luta seguinte para ganhar individualidade e controle que modela grande parte do self. Ela acreditava piamente na importância da auto-realização e no amadurecimento de cada indivíduo. Karen estava muito mais voltada para o mundo social e as motivações sociais do que os freudianos (voltados quase exclusivamente para os impulsos sexuais). Em 1932, emigrou de Berlim para os Estados Unidos. Essa tremenda mudança cultural abriu-lhe ainda mais os olhos para as influências da sociedade sobre o desenvolvimento do indivíduo.

Rejeição da inveja do pênis

A análise de Freud sobre as mulheres foi fundamentada em torno do conceito de inveja do pênis. Horney rejeitou a idéia de que as mulheres sentiam que seus órgãos genitais eram inferiores, embora minuciosa observação empreendida por ela tenha revelado que com freqüência as mulheres de fato se sentem inferiores aos homens. Freud, fazendo o mesmo exame, defendeu essa idéia do ponto de vista anatômico - a falta de um pênis. Entretanto, Horney sustentou que os sentimentos de inferioridade das mulheres originavam-se da maneira como elas eram educadas na sociedade e da ênfase exagerada para que se assegurassem do amor de um homem. Ela acreditava que, se as mulheres fossem criadas em ambientes nos quais a definição de "masculinidade" fosse forte, valente, competente e livre e, a de "feminilidade" fosse inferior, delicada, frágil e submissa, as mulheres sem dúvida ver-se-iam numa condição subordinada e, portanto, desejariam coisas  "masculinas" como forma de ganhar poder. Porém, ela não concordava com a idéia de Freud de que era um pênis que as mulheres queriam; ao contrário, elas queriam a autonomia e o controle que associavam com a masculinidade. Além disso, ela postulou que os homens são inconscientemente invejosos de algumas qualidades femininas, como a capacidade de ficar grávida.


Ansiedade básica

Pelo fato de as crianças serem impotentes - não estarem aptas a sair pelo mundo e reivindicar seu lugar legítimo -, precisam reprimir qualquer sentimento de hostilidade e irritação pelos adultos poderosos que vivem em seu próprio mundo e lutar para agradar a esses adultos como forma de satisfazer suas necessidades. Horney, portanto, substitui a ênfase biológica de Freud pela idéia de ansiedade básica. A ansiedade básica é o medo da criança de estar sozinha, desamparada e insegura, Ela provém de problemas nas relações da criança com os pais, como a falta de afeto, estabilidade, respeito ou envolvimento. Consequentemente, acreditava Horney, a ansiedade básica podia ser direcionada praticamente a todas as pessoas, caso em que um tumulto interno seria focalizado externamente, no mundo em geral. Desse modo, embora Horney aceitasse o conceito psicanalítico básico de Freud de que as pessoas são impulsionadas por motivos inconscientes e irracionais que se
desenvolvem na infância, ela acreditava que esses motivos originavam-se de conflitos sociais dentro da família e de conflitos mais amplos dentro da sociedade (Horney, 1968, 1987, 1991).
Em reação à ansiedade básica, os indivíduos são hipoteticamente acomodados em um modo primário de adaptação ao mundo. Aqueles que acreditam que podem fazer maior progresso sendo condescendentes adotam o estilo passivo; aqueles que acreditam em lutar para sobreviver adotam o estilo agressivo; e aqueles que sentem que é melhor não se envolver emocionalmente, de modo algum, adotam o estilo retraído. Essas idéias têm muito mais do que o simples interesse histórico; elas formam uma estrutura amplamente aceita que busca compreender a maneira adequada de criar filhos. Grande parte da preocupação atual em oferecer às crianças afeto e ambientes familiares respeitosos provém dessa teorização neoanalítica sobre o papel da sociedade em suavizar os instintos biológicos.
o self Os neo-analístas concentraram-se na identidade e percepção do self. Ao analisar pessoas neuróticas, Horney descreveu diferentes aspectos do self. Primeiro, há o seIf real, a essência interna da personalidade que nós percebemos sobre nós mesmos, que abrange nosso potencial de auto-realização; essa essência é prejudicada pela negligência e indiferença dos pais. Essa negligência dos pais pode gerar o seIf desprezado, que consiste em percepções de inferioridade e deficiência, na maioria das vezes baseadas em avaliações negativas que outras
pessoas fazem de nós e dos sentimentos de impotência daí resultantes. Talvez o mais importante tenha sido que Horney identificou o seIf ideal- o que uma pessoa considera perfeito e espera realizar - como sendo modelado por impropriedades percebidas. Ao descrever o self ideal, Horney referiu-se ao que ela chamou de "tirania do deveria", que é a ladainha de coisas que deveríamos ter feito de maneira diferente e com as quais nós nos atormentamos. O sel fideal é um composto de todos esses "deverias". Para Horney, a finalidade da psicanálise não era ajudar alguém a alcançar seu self ideal, mas capacitar a pessoa a aceitar seu self real.
As pessoas que são alienadas de seu selfreal tornam-se neuróticas e desenvolvem uma estratégia de enfrentamento interpessoal para "solucionar" esse conflito.

Estratégias neuróticas de enfrentamento

Horney, portanto, propôs uma série de estratégias usadas pelos neuróticos para que possam enfrentar outras pessoas. A primeira dessas abordagens é por ela denominada "aproximação" - isto é, sempre tentar fazer os outros felizes, obter amor e assegurar a aprovação e a afeição dos outros. Para Horney, os indivíduos que empregam essa estratégia de enfrentamento estão se superidentificando com o self desprezado e, portanto, estão se considerando indignos de amor. As tentativas dessas pessoas para ganhar amor são, por um lado, um disfarce do que elas acreditam ser verdadeiro sobre si mesmas e, por outro, uma maneira de fazer os outros acreditarem que elas merecem afeição. Por exemplo, as mulheres que foram criadas por pais alcoólicos podem ter aprendido a obter auto-estima sujeitando-se a situações de exploração; quando adultas, essas mulheres talvez procurem homens aproveitadores e empenhem-se para fazê-Ios felizes e, desse modo, ganharem a aprovação deles (Lyon & Greenberg, 1991). No jargão popular, esse padrão perturbado de relacionamento é às vezes chamado de codependência. Horney denominou a segunda abordagem de "expansão" - isto é, lutar por poder e reconhecimento e pela admiração dos outros. Para Horney, esses indivíduos, em vez de identificarem-se exageradamente com o self desprezado, superidentificam-se com o self idealizado. Eles têm de passar a acreditar que todas as coisas que desejavam ter sido são verdadeiras e sua luta por reconhecimento e poder é um esforço para reafirmar para si mesmos a verdade dessa ilusão. A terceira abordagem foi chamada de "afastamento" - isto é, desviar-se de qualquer investida emocional nas relações interpessoais, no sentido de evitar ser ferido nessas relações. Para Horney, esses indivíduos desejam superar o self desprezado e, além disso, sentem -se incapazes de tornar-se o self idealizado. Eles se consideram, no estado em que se encontram, indignos de amor e atenção alheios e também se sentem incapazes de alcançar algo melhor. Portanto, para evitar a diferença desagradável - a divergência
- entre esses dois aspectos do self, eles se escondem atrás da independência e da solidão.
No geral, essas estratégias de proteção do self, embora neuróticas, podem tornar-se uma necessidade difusa e chegar a dominar a personalidade de alguém. Horney enumerou dez defesas contra a ansiedade, as quais passaram a ser conhecidas como as dez necessidades neuróticas.

As dez necessidades neuróticas postuladas por Karen Horney

·       Afeição e aprovação (sempre tentar agradar aos outros)
·       Parceiro dominador (dependência exagerada)
·       Poder (necessidade de controlar os outros e de desdenhar a fragilidade)
·       Exploração (medo de ser explorado(a), mas não de explorar)
·       Reconhecimento e prestígio (busca constante por um status mais alto)
·       Admiração (busca de elogios, mesmo se imerecidos)
·       Ambição e realização (desejo de ser superior, em conseqüência da insegurança interior)
·       Auto-suficiência (não confiar nunca nos outros)
·       Perfeição (busca da impecabilidade)
·       Limites estreitos (contentar-se com pouco e, portanto, subjugar-se)
As pessoas neuróticas concentram-se compulsivamente em uma dessas necessidades  em todas as suas interações sociais. Essas  necessidades são soluções irracionais aos desafios que todos nós enfrentamos (Horney, 1942). A necessidade de um neurótico nunca pode ser satisfeita. Em suma, Karen Horney ajudou o pensamento psicanalítico a afastar-se da ênfase biológica, anatômica e individualista. Embora tenha aceitado o significado dos motivos inconscientes desenvolvidos na infância, Horney enfatizou a importância do afeto, da estabilidade familiar, bem como do impacto da sociedade e da cultura tomadas num âmbito mais amplo. Além disso, da mesma maneira que Horney, em sua própria vida, lutou contra os obstáculos impostos pela sociedade às realizações das mulheres, ela não aceitou a idéia de que a natureza das mulheres as torna inerentemente frágeis e submissas. Ela examinou as influências da família e da cultura sobre cada indivíduo e insistiu em que as pessoas podiam lutar para superar seus demônios inconscientes. Horney também enfatizou a aflição da "tirania do deveria" - as exigências neuróticas internas de perfeição. Horney escreveu que a psicanálise não é a única forma de solucionar conflitos internos - que "a própria vida" é um terapeuta muito eficaz (Horney, 1945).
A despeito das tentativas de Horney, a psicanálise não deixou de centralizar-se significativamente no sexo masculino e de ser paternalista. Como a feminista Germaine Greer (1971) disse espirituosamente, "Freud é o pai da psicanálise. Ela não teve mãe".

Fonte:
Teorias da Personalidade – da teoria Clássica à Pesquisa Moderna
( Friedman&Schustack)