terça-feira, 11 de dezembro de 2012

HISTÓRIA DA PSICOPATOLOGIA


De acordo com o pesquisador Ceccarelli (2003), "a palavra "Psico-pato-logia" é composta de três palavras gregas: "psychê": psique, psíquico, psiquismo, alma, espírito; pathos: paixão, passividade, sofrimento, doença e “logos": lógica, discurso, narrativa, conhecimento. Com isso, Ceccarelli (2003) demonstrou que podemos entender essa ciência como a área do conhecimento científico que estuda, avalia e desenvolve estratégias de tratamento para uma pessoa que padece de algo que ele desconhece e o faz sofrer. A psicopatologia segundo Ménéchal (2002) “é uma preocupação muito antiga do pensamento, que se confunde com a reflexão do homem sobre a estranheza dos seus semelhantes, e que remete para certa abordagem do enigmático, seja esta encarnada pelos deuses, pelo mal, pela sexualidade ou até pela ciência” (MÉNÉCHAL, 2002, p.16).
Por séculos tentou-se entender a doença mental em diferentes contextos sócio-ambientais. Aristóteles (384 a.C.) atribuiu os males da mente à paixão, um elemento inerente ao ser humano. O homem deveria saber dosá-las para encontrar equilíbrio entre paixão e razão. Aristóteles não considerava a paixão um mal que leva a agir contra a vontade do indivíduo, mas sim, como uma força que justifica o agir desse indivíduo (ALMADA, 2005; MOSSO, 2010).

Hipócrates (460 A.C.), filósofo grego, e considerado o pai da medicina moderna, separou a medicina da religião e da superstição. Através de Hipócrates conhecemos conceitos como humor, crise, metástase, recidiva, prognóstico entre outros. Esse filósofo defendeu que as doenças mentais tinham causas naturais e deveriam ser tratadas como outras doenças. Davidson (2003) relatou que Hipócrates associou o pensamento e comportamentos anormais a patologias cerebrais, foi “um dos preponentes mais antigos da somatogênese, a idéia de que alguma coisa anormal no soma ou corpo físico perturba o pensamento e a ação (DAVIDSON, 2003, p.7).

Nesse período, foi inaugurada a clínica baseada na descrição das alterações cognitivas, volitivas, emocionais e orgânicas que passam a ser interpretadas como expressões das disfunções hormonais, resultando nos quadros clínicos de mania, melancolia, histeria, entre outros, ou seja, o pensamento dessa época era que o humor implicava nos humores do corpo humano, que por sequência influíam no caráter dos indivíduos, no seu temperamento (MARTINEZ, 2006).

Santa Clara (2009) exemplificou algumas conceituações, a melancolia, por exemplo, defendidas na Idade Média desenvolvidas por Hipócrates e Aristóteles, a melancolia foi “explicada pela presença de uma quantidade excessiva e fortuita de bile negra no corpo, e entre os religiosos da Idade Média é reconhecida como um adoecimento espiritual”(SANTA CLARA, 2009, p.2).

Após Hipócrates, foi Platão (427-348 a.C.) quem se destacou no arcabouço teórico da Psicopatologia, na obra “Timeu”, Platão concebeu a psique (alma) como sendo constituída por três partes: racional, afetivo-espiritual e apetitiva. Platão considerava que a loucura era proveniente da desarmonia entre as três partes do sistema psíquico, o que provocava o desvio na racionalidade de seguir as leis lógicas (MARTINEZ, 2006, p.21).

Ainda que Galeno (131-200 D.C.) tenha se inspirado na observação clínica e na nosografia hipocráticas, o espírito de sistema o distanciou de Hipócrates e o levou ao dogmatismo que Pinel (1745-1826) pretendeu abolir ao priorizar o método clínico da psicopatologia (MARTINEZ, 2006, p.26).

A obra de Pinel constituiu um sistema descritivo, sem ser explicativo, das doenças mentais, ele enumerou quatro grandes classes de manifestações mórbidas: a mania, a melancolia, a demência e o idiotismo. A semiologia psicopatológica encontrada nos estudos de Pinel tratou dos distúrbios das faculdades do entendimento, como: sensibilidade ou sensação, percepção, emoções e afecções morais, imaginação, pensamento, julgamento, memória e caráter. Esse estudioso construiu uma doutrina aparentemente eclética e precisa, baseada numa concepção materialista psicofisiológica (MARTINEZ, 2006).

            Pessotti (1996) indicou que Pinel afirmou em seus estudos sobre o tratamento clínico, que a loucura não era a desrazão que desumaniza, é, apenas, um desequilíbrio na razão ou nos afetos, assim era possível resgatar a identidade humana do alienado, colocando um fim a sua exclusão. Pinel defendia que a observação demorada da conduta dos pacientes era o método mais eficiente para diagnosticar, ordenar e catalogar os sintomas e os distúrbios mentais.

Philippe Pinel foi nomeado, em 1793, responsável pelo sistema hospitalar parisiense e diretor de um grande asilo de Paris - o La Bicêtre, onde iniciou uma ampla reforma tanto nas condições de vida daqueles internados como no seu tratamento. As correntes foram retiradas e os doentes começaram a ser tratados como seres humanos, não mais de forma desumanizada. Muitos se tornaram calmos e passaram a andar livremente pelo hospital. Alguns que eram considerados “casos perdidos”, se recuperaram (DAVIDSON, 2003).

Kraeplin (1856-1926) reduziu a identificação de uma forma patológica aos seus sintomas, nem à sua etiologia, nem à sua terapêutica, ele empreendeu uma cartografia ordenada da psicopatologia de que ainda vive a psiquiatria moderna (MÉNÉCHAL, 2002).

            Griesinger (1817-1868) foi um grande expoente da Psiquiatria, suas obras apresentavam as características de um manual prático, dividindo-se didaticamente em: considerações gerais, semiologia, etiopatogenia, formas clínicas, anatomo-patologia, prognóstico e terapêutica, tal como até hoje, no século XXI. A referência teórica de Griesinger seria retomada no século seguinte por Blondel, Guiraud, Jaspers e Freud, como, por exemplo, a teoria do “ego” e de sua metamorfose no delírio (MARTINEZ, 2006; DACKER, 2003).

Jaspers (1883-1969) fez uma crítica ao método empírico tradicional científico e propôs o método fenomenológico. Em 1913, com o intuito de discutir questões relativas às doenças mentais, publicou Psicopatologia Geral. Jaspers compreendia a psicopatologia como ciência cuja função seria observar e descrever os fenômenos psíquicos patológicos, diferentemente da psiquiatria que tem por objetivo diagnosticá-los e tratá-los (PESSSOTTI, 2009)

Dalgalarrondo (2000) refletiu com base na conceituação de Jaspers que “não se pode compreender ou explicar tudo o que existe em um homem por meio de conceitos psicopatológicos, ao se diagnosticar Van Gogh e fazer uma análise psicopatológica de sua biografia, não se explicará totalmente a vida e a obra desse artista” e completa “sempre resta algo que transcende à psicopatologia, e, mesmo, à ciência, e que permanece no domínio do mistério” (DALGALLORRONDO, 2000, p.23).

Herdeiro dos filósofos alemães do espírito e neurologista, Freud (1856-1939) situou-se na confluência de uma ciência médica preocupada com a classificação e de uma filosofia do tratamento moral da loucura (MÉNECHAL, 2002).


A história do percurso psicanalítico de Freud desde Breuer, passando por Charcot, Liébault, Bernheim e Fliess, chegando a Jung, Bleuler, Adler, Rank, Ferenczi, entre outros, foi e ainda nos dias atuais são difundidas. A psicanálise apareceu como uma teoria e uma nova técnica de tratamento de doenças mentais, a fim de preencher uma lacuna científica no âmbito da psicologia e da psicopatologia, ligando a medicina à filosofia da mente e à epistemologia da neurociência e da psicopatologia (MARTINEZ, 2006, p. 122


Interessante observar que no cotidiano científico e pós-moderno algumas discussões incluem, o debate interdisciplinar – ou seja, um pesquisador ou profissional especialista irá agregar novos conhecimentos ao grupo e, assim a equipe poderá apreender, compreender e cuidar pessoas adoecidas com maior possibilidade de segurança e conforto, condições importantes para a boa saúde mental do trabalhador, revertida em estratégias com maior possibilidade de serem eficientes junto aos pacientes e familiares.

Sendo assim e corroborando com Dalgalarrondo (2000), “Não se avança, em psicopatologia negando e anulando diferenças conceituais e teóricas; avança-se, sim, por meio do esforço de esclarecimento e aprofundamento de tais diferenças, em um debate aberto, desmistificante e honesto” (DALGALARRONDO, 2000, p.28). Na produção de conhecimento ocorrem comumente discursos divergentes, a Psicopatologia tem diferentes tipos de escolas teóricas que analisam, avaliam e desenvolvem estratégias de tratamentos para as pessoas que se encontram com comportamentos anormais, desviantes ou divergentes de um determinado grupo.



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